Território

Margem Esquerda do Guadiana

Não há dia nenhum que aqui seja igual. À margem esquerda do Guadiana. Nem o silêncio monocórdico das solarengas tardes de Verão se repete por cada campo no canto das cigarras; nem o afável castanho dos barros de Serpa e Moura se confundem nas manhãs quase doces de Outono. Que diferentes são os gestos dos ranchos de gente na azeitona em Safara dos da belicosa correria entre vinhas douradas na Granja ou na Amareleja. E parece tão diferente o Sol de Primavera que, como numa aguarela, compõe o vestido florido e ondulado dos campos de Barrancos e o meio enevoado que encanta as serranias da Adiça a Ficalho.

Mas é isto a margem esquerda. Do Guadiana. Diferente todos os dias. E em cada canto. E cante. E gestos. Como se distingue tão facilmente o falar romanceado do barranquenho do cadente da voz, quase trazendo o peso da terra, de um homem da Serra de Mértola.

Da mesma serra que para além das Fábricas é de Serpa. E que singeleza e jeito distingue os cantes de Vila Nova de S. Bento dos de Mourão. E com que métricas, sempre do tamanho do mundo, faz cada poeta da margem esquerda a sua obra, todos os dias prima, eternamente memória de homens e olhares sem fim. Todos os dias frágil mas não efémera.

Margem esquerda do Guadiana. O rio. Este Guadiana que fez e faz destes campos e destas gentes um vitral de tantas cores, de tantas formas, de tantos encantos. De cerros de Estevas e planuras de trigo; de vales rochosos e vargens prenhas de terra. Este rio roubando às margens palmos de terra cada vez que cresce às portas do Inverno e enchendo de pasmo o nosso olhar quando se esconde nas ressequidas tardes de Verão. O rio. Este rio que também é tantos afluentes: Ardila, Limas, Chança, Alcarrache, Enxoé. De tantos barrancos feitos rio, depois finos riachos e mais tarde enrugada superfície de terra. E de seixos rolados e de charnecas de poejos.

À margem esquerda do Guadiana o rio tem o tamanho da memória de muitos mil anos. Trazida por gentes carregando a farta visão daquilo que é a simplicidade da terra. E do tempo.

Miguel Rego

Última actualização
Segunda, 2 de Novembro de 2015
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